Texto de Andrey José Taffner Fraga
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A imigração polonesa em Santa Catarina concentrou-se, principalmente, na região do Vale do Tijucas e nos arredores da Colônia Lucena, atual município de Itaiópolis. Na Colônia Blumenau, famílias polonesas chegaram a partir de 1870, fixando-se na região de Sandweg (Estrada da Areia), que, atualmente, pertence ao município de Indaial. As famílias polonesas que mais tarde se fixaram em Rio dos Cedros eram oriundas tanto dos fluxos migratórios a partir da Colônia Blumenau, quanto a partir de migrações do norte do Estado.
A Polônia, constituída como Estado em 966 e elevada a Reino em 1025, esteve sob domínio estrangeiro entre 1795 e 1918. Nesse período, seu território foi partilhado entre a Prússia/Alemanha, a Áustria e a Rússia, e foi durante tal período, mais especificamente no final do século XIX, que se observou a imigração em massa de seus habitantes. A imigração polonesa para o Brasil teve início em 1869, com os primeiros contingentes desembarcando na Colônia Brusque. No entanto, o fluxo mais expressivo ocorreu a partir da década de 1890, período conhecido na Polônia como a “febre brasileira”. Como o país não existia como Estado soberano na época, esses imigrantes eram registrados como austríacos, alemães ou russos, conforme a região de onde partiam.
Os maiores contingentes emigraram da Galícia (sob domínio austríaco), da Silésia (sob domínio alemão/prussiano) e de regiões centrais da Polônia, como Płock e Łódź (sob domínio russo). Enquanto os territórios sob controle da Áustria gozavam de certa liberdade cultural e de identidade, as regiões dominadas pela Rússia sofriam constante repressão, que incluía a proibição do uso do idioma pátrio. É comum ouvir dos descendentes poloneses mais idosos em Rio dos Cedros histórias envolvendo a perseguição russa às suas famílias.
Em Rio dos Cedros, as localidades que mais acolheram imigrantes poloneses foram Rio Milanês e Rio Herta, na região serrana do município. Em Rio Milanês, a comunidade ficou fortemente associada ao cultivo e ao artesanato do vime. Embora a maior concentração tenha ocorrido nessas duas comunidades, algumas famílias também se estabeleceram em outras localidades serranas, no entorno da região dos lagos. Observa-se que a imigração polonesa se concentrou nesta região montanhosa, inclusive em municípios e localidades vizinhas, como Ribeirão Pinheiro, Ribeirão do Tigre e Ribeirão dos Russos, em Benedito Novo, Pinheiros, em Doutor Pedrinho e Ipiranga, em Rodeio, formando uma região mais ampla de imigração polonesa na qual Rio Herta e Rio Milanês se inseriam, e que se localiza na divisa do território da antiga Colônia Blumenau com a região norte do Estado. Os imigrantes, como já mencionado, chegavam tanto da própria Colônia Blumenau, quanto das colônias do norte, especialmente de Lucena (Itaiópolis).
Um manuscrito datado de 25 de maio de 1906, intitulado “Censo das famílias polonesas residentes em Rio Herto” (atual Rio Herta), registra a origem de algumas das famílias pioneiras desse fluxo no município:
Biernacki – Złotniki / Dalików
Brodziński – Kępiny / Włocławek
Dydyński – Warszawa / Lutomiersk / Łódź
Gołdyński / Goliński – Bieżuń / Sierpc
Grabowski – Truskolasy / Mława
Hadyński (registrado como Hadyńskieh) – Kłecko
Koralewicz – Kamionka / Galícia
Kukliński – Bukowiec / Płock
Kuskowski – Unierzyż / Mława
Ostapczuk – Kamionka / Galícia
Świerkowski – Żelaźno / Włocławek
Sznajder (registrado como Sznajdrów) – Sokoły / Mława
Urbański – Ostrowąs / Włocławek
Wasielewski – Pobiedziska / Poznań
Witkowski – Dziektarzew
Woland / Wolandrow
Nota-se que, para cada sobrenome, são indicadas a localidade/aldeia de origem e a respectiva paróquia (parafia), comuna ou distrito de referência onde eram efetuados os registros civis e religiosos. É importante ressaltar que a organização territorial da Polônia passou por profundas reconfigurações administrativas ao longo do tempo. Por essa razão, a vinculação histórica entre as localidades e suas jurisdições regionais nem sempre corresponde às divisões geográficas atuais.
No mais, observa-se maior incidência de famílias oriundas do território polonês então dominado pelo Império Russo, sobretudo das regiões históricas de Kujawy, Mazowsze e da área de Łódź. Há, também, algumas poucas famílias provenientes da região sob domínio prussiano (nas proximidades de Poznań) e da Galícia, sob controle austríaco.
Além das famílias citadas no documento, outros sobrenomes de origem polonesa bastante comuns na cidade incluem: Dobicz, Figurski, Grande/Grendysz (originários de Ciemierzynce / Przemyślany), Hwizdaleck, Koslovski, Kulpa, Lipinski, Lorenz, Maniewski, Maukewich, Mileski, Mutschaewski, Olseski, Ostrovski, Piontkosmski, Piontkowski, Piutkosko, Prussek, Ruda, Ruzanowski, Wasielewski, Wesolowski e Wisdaleck.
No âmbito cultural, nota-se ainda em algumas famílias a preservação de um antigo dialeto polonês, hoje pouco falado. A religiosidade católica, marcada de modo especial pela devoção a Nossa Senhora de Częstochowa (conhecida no Brasil como Nossa Senhora do Monte Claro ou Madona Negra), é um traço marcante dessa herança. Além disso, algumas famílias ainda mantêm viva a tradição do Baranek, o cordeirinho esculpido em manteiga ou massa de bolo, usado como ornamento nas celebrações de Páscoa.

